O sonho de publicar um livro e ser juiz

Todo autor sabe que correr atrás de uma editora para publicar um novo livro não é uma tarefa fácil. Quando se trata de um adolescente internado no sistema socioeducativo, que  resolveu aproveitar seu tempo para revisitar sua própria história, essa tarefa pode ser ainda mais delicada e complexa…
Isso porque, infelizmente ainda vivemos em uma cultura de exclusão daqueles que fazem algo considerado “errado”. E, mesmo depois que saem do Sistema socioeducativo ou carcerário, continuam sendo excluídos pelos erros do passado.
Anthony Gabriel, após muitos erros, resolveu olhar com maior profundidade para sua história e registrá-la. Refletiu, ressignificou e, deste processo nasceu o livro “O príncipe das Grades” e antes de sonho de publicá-lo.
O livro é um pedido de socorro que pode ser estendido a todas as famílias e um alerta ao Estado: é necessário olhar para o problema e encontrar formas preventivas de acolher ao invés de excluir…
Com o nascimento do livro também cresceu a esperança de dias melhores… Anthony quer se formar em Direito e um dia se tornar juiz.
Acolhendo, como se faz na filosofia Ubuntu, a Casa de Sonhos, apoiou a publicação do livro de Anthony, lançado no início de fevereiro de 2022,  no Fórum de Luziânia, GO.
Foto 1. Lançamento do livro O Príncipe das grades no Fórum de Luziânia (Equipe do Case, Juíza Célia Lara, cofundadora da Casa de Sonhos Vanessa Machado e Sandra Férrer, cofundadora da Casa de Sonhos e Editora da Emoções Positivas Editora.

 

A celebração foi objeto da reportagem da TV Ahanguera/G1, da CBN e do Jornal local.
Foto 2 – Matéria da TV – lançamento do livro O Príncipe das grades.
O lançamento do livro foi, também, objeto de reportagem da Rádio CBN Goiânia. Clique na imagem e ouça a matéria!
Foto 3 – Matéria da Rádio CBN sobre o livro O Príncipe das grades
Além das matérias da TV e rádio, o tema também foi matéria do Jornal o popular.
Leia a apresentação do livro escrito pelas cofundadoras da Casa de Sonhos que apoiaram a publicação:
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Apresentação

Na filosofia Ubuntum, diferentemente do que acontece nas culturas ocidentais, quando alguém comete um erro, é acolhido e não separado do sistema. Para os africanos, aquele que erra o faz por estar afastado de sua essência divina. Quando isso ocorre, fazem uma grande roda e, uma a uma, as pessoas se dirigem àquela que cometeu o erro e dizem “sawabona”, que significa “eu te respeito, eu te valorizo. Você é importante para mim.” Em seguida, descreve fatos e situações em que a pessoa que errou demonstrou suas forças, seus valores e aquilo que tem de melhor. Em resposta, aquele que errou diz “Shikoba”, que significa “então eu existo para você”.

Assim como aqueles termos, não têm tradução literal, Ubuntum também não. Acredita-se que a filosofia foi herdada do antigo Egito – que antes da conquista dos gregos, era conhecido por Kemet. O termo Ubuntum vem do banto e significa “eu te vejo e sou outro você.

Referindo-se à filosofia, Martin Luther King Jr., assegura que “todas as pessoas estão capturadas em uma rede inescapável de mutualidade, ligadas por um único tecido do destino. O que quer que afete a um diretamente, afeta a todos indiretamente.”

É fato que os inúmeros sistemas dos quais fazemos parte – familiar, educacional, socioeducacional, penitenciário, de saúde… – estão longe de serem perfeitos. As sombras e complexidades decorrentes de cada um de nós afetam aquilo que construímos e, por consequência, o todo. A propósito das sombras, ensina-nos Deepak Chopra que “é feita dos pensamentos, emoções e impulsos que achamos dolorosos demais, constrangedores ou desagradáveis para aceitar.” Então, fazemos de conta que não existem, tentamos expulsar do sistema e passamos a viver com o peso da negação.

 O primeiro passo para uma mudança consistente é assumir que a sombra existe. Anthony Gabriel faz isso com coragem. Assume e conta a própria história, sem medo de ser julgado. Assume e conta as emoções que sentiu e traz para a compreensão do sistema, que vai além do socioemocional e familiar, mais uma peça do quebra-cabeças. Uma peça, que muitos estudiosos da Psicologia, do Serviço Social, da Pedagogia buscaram encontrar em suas pesquisas sem sucesso. O autor abre seu coração e,  encadeando logicamente o fatos, com emoção e riqueza de detalhes, vai mostrando sua percepção de criança e adolescente livre e interno.

É, por tudo isso, um livro forte! Mas, mais do que isso! É um alerta para os sistemas familiares. Mesmo que o leitor não faça parte do contexto do protagonista, em algum aspecto será levado a refletir acerca da mais básica conduta: da missão do olhar, do acolher, de cuidar do vulnerável, sobretudo emocionalmente. E quando falamos de cuidado, estamos nos referindo a cuidar do ente familiar e de si próprio. Sim! O autocuidado é mais que necessário! É questão de saúde mental.

Podemos dizer que o livro é a representação viva e um chamado às autoridades públicas para a necessidade de olhar para as sombras do próprio sistema governamental, sem desconsiderar as luzes – no livro claramente representadas pelas pessoas que fizeram a diferença na vida de Anthony durante a sua internação. É também um chamado para ir além do reconhecimento das sombras dos sistemas familiares que afetam a conduta dos adolescentes e desenvolver políticas públicas especiais de prevenção. É fundamental que a educação socioemocional alcance os profissionais do sistema, mas principalmente os lares e escolas, sobretudo as públicas, propiciando aos pais a oportunidade do exercício de uma parentalidade consciente. 

No curto prazo, aplicação da medida socioeducativa pode parecer mais eficiente e menos onerosa aos cofres públicos. Os detalhes da história de Anthony Gabriel mostram, entretanto, que apesar dos laços emocionais construídos no sistema, é lá fora que ele enfrentará o maior desafio. É lá fora que ele necessita de apoio para resistir aos chamados da contravenção e do crime. Por isso, também, no longo prazo, a educação socioemocional preventiva é mais econômica que a reeducação e os longos processos de cura do adolescente, da família e de todas as suas vítimas, para que voltem a ser inteiros.

Ser inteiro também é saber seu lugar no mundo! É saber e reconhecer que tem um propósito, uma missão de, com suas forças e talentos, fazer do mundo um lugar melhor. E para isso, é fundamental estar curado e livre de mágoas, crenças limitantes, amarras… A propósito, cabem perfeitamente as palavras de Martin Luther King Jr, ainda sobre a filosofia Ubuntum:

Eu nunca poderei ser o que eu devo ser até que você seja o que deve ser. E você nunca poderá ser o que deve ser até que eu seja o que devo ser. Ubuntu é, assim, um caminho para restaurar nossa verdadeira humanidade, na compreensão de que “eu sou porque você é, você é porque eu sou e nós somos por sermos uma comunidade.

Lili Vieira e Sandra Férrer
Cofundadoras da Casa de Sonhos

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